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 Não por acaso    (Brasil
- 2007)
por João Solimeo
Ênio (Leonardo Medeiros) é um controlador da
Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo. Sua função é ficar
observando o caótico trânsito da maior cidade do país de
um ponto de vista distante e frio. Ele tem à disposição
centenas de câmeras que olham as ruas da cidade e pode, se
necessário, abrir e fechar semáforos ou inverter a mão das ruas. Ele
vê o trânsito como um fluido correndo por artérias invisíveis.
Quando há poucos carros há pouca pressão e tudo flui bem. Quando há
muitos carros a pressão aumenta e tudo deixa de fluir. Sua vida
pessoal é inexistente mas ficamos sabendo que ele tem uma filha
adolescente, Bia (Rita Batata) que mora com a mãe e o padrasto, e
que ela quer conhecê-lo. Ele não parece muito entusiasmado com a
idéia.
Pedro (Rodrigo Santoro) mora nos fundos de uma
oficina que fabrica mesas de sinuca. Ele herdou o negócio do pai e
quer manter tudo exatamente como era quando o velho era vivo. Ele
também joga sinuca mas é tão metódico que não consegue criar coragem
para participar dos torneios amadores. Ele passa horas
estudando as bolas sobre a mesa e pensa prever com
exatidão todos os seus movimentos, que anota em um caderninho. Ele
mora com Teresa (Branca Messina), uma jovem estudante e fotógrafa
que está abandonando uma vida de classe média alta para morar
com Pedro na oficina de sinuca. Teresa tenta fugir do controle da
mãe Iolanda (Cássia Kiss) que acha que a filha está embarcando em um
beco sem saída. Teresa aluga o apartamento grande para Lúcia
(Letícia Sabatela), uma "trader" de café no mercado de
futuros.
Um dia o acaso (ou o destino, como o título
parece sugerir) leva a ex-mulher de Ênio e Teresa a sofrerem um
grave acidente no centro da cidade e a vida de todos é mudada
drasticamente. Ênio passa a receber a visita da filha que tenta, aos
poucos, quebrar a casca fria do pai engenheiro e se aproximar dele.
Pedro sofre a perda de Teresa mas o "acaso" o leva a conhecer Lúcia
e há a possibilidade de um romance entre os
dois.
"Não por acaso" é um filme que, desconfio,
precisa ser descoberto aos poucos. A primeira impressão é de um
filme que, assim como seus personagens, é metódico e técnico
em excesso.
O diretor Philippe Barcinski começou a carreira com
curtas metragens e filmes publicitários e faz sua estréia em longas
metragens. Produzido pela O2 Filmes (de Cidade de Deus), pela Fox e
pela Globo Filmes, o filme tem um tom autoral mas, por vezes, usa de
recursos tecnológicos de ponta para criar cenas que, apesar de bem
feitas, destoam da obra como um todo. Seja nos belos créditos
iniciais, em que os nomes da equipe parecem flutuar por cenas aéreas
de São Paulo, ou na criação em computação gráfica de jogadas
mirabolantes de sinuca ou mesmo em uma cena de amor em que a imagem
treme desnecessariamente, os efeitos especiais parecem estar
disputando espaço com um roteiro que poderia ser mais comovente. O
roteiro também embarca, por vezes, em frases técnicas da engenharia
de tráfego que ao invés de dar realismo ao filme parecem apenas
querer mostrar como os roteiristas se empenharam em pesquisar o
tema.
Mas por baixo da parte técnica se esconde um
filme que lida com seres humanos e seus problemas. Os homens
são mostrados como tradicionais e acomodados enquanto as mulheres
estão sempre em busca de alguma coisa, mas na verdade tanto Ênio
quanto Pedro parecem assustados com as mudanças e tentam como podem
controlar tudo a sua volta, seja o trânsito de São Paulo ou as bolas
em uma mesa de sinuca. A cidade também é vista como uma personagem e
Barcinski (que é carioca) parece fascinado com os mistérios de Sampa
e pela beleza escondida na metrópole. Quando chega o domingo, por
exemplo, a cidade que não tem praia abre espaço para o lazer no
Elevado Costa e Silva (o Minhocão), e Ênio passa minutos seguidos
falando de seu trabalho com Bia. Já Pedro leva Lúcia para uma
paisagem verde que mostra a cidade de longe e é dos pontos
emocionantes do filme.
O roteiro foge de certas fórmulas e deixa
algumas pontas soltas. Um filme americano, provavelmente, levaria em
frente a subtrama envolvendo Pedro e os campeonatos de sinuca, por
exemplo, e desenvolveria melhor a relação de Ênio com os
companheiros de trabalho. Por vezes o filme padece de certa
falta de ambição. A não ser pelo acidente que muda tudo e pela
intervenção de Ênio no trânsito da cidade em um momento, nada
realmente "acontece" no roteiro da forma como se espera de um filme
de ficção. Falta certa empatia com os personagens e a vontade de
torcer por eles. A trilha instrumental de Ed Côrtes é muito boa,
apesar de certa repetição e do uso desnecessário de canções em
alguns momentos.
Um filme interessante mas não muito ambicioso e
que foge um pouco dos modelos esperados de um "filme nacional" (não
há menção a problemas sociais ou citações políticas, por
exemplo).
João Solimeo 10/06/2007
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