
O Homem que Copiava
  
(Brasil - 2003)
por João Solimeo
"Quando se trabalha com alguma coisa em que não se precisa pensar muito,
acaba-se pensando em um monte de outras coisas". Assim raciocina André (Lázaro
Ramos), um "operador de fotocopiadora" de uma pequena loja de Porto Alegre.
Ainda bem que ele tem tanto tempo para pensar, pois é a partir desses
pensamentos que o roteirista e diretor Jorge Furtado constrói "O Homem que
Copiava", um divertido filme que é tão fragmentado quanto os pequenos trechos
dos livros que André lê enquanto os copia. Acompanhamos os pensamentos de André
enquanto trabalha na loja do "Seu Bolha", ou melhor, Sr. Gomide, o seu patrão.
André o chama de "bolha" porque é através de um espelho bolha que ele fica
vigiando o empregado lá de longe, no caixa.
O roteiro é cheio desses ótimos detalhes visuais
e a narrativa fragmentada de André é trazida à vida pelas imagens de Furtado. A
infância de André é mostrada em desenho animado, pois foi quando assistia a um
que seu pai foi embora e nunca mais voltou. Sua rotina em casa é mostrada como
uma história em quadrinhos, pois além de "operador de fotocopiadora" André
também é desenhista amador, e passa as noites bolando gibis que ele tenta (sem
sucesso) vender às revistas. Mas não é só isso que ele faz à noite. Com um
binóculo (que comprou depois de meses economizando), ele assiste de longe à
história de seu amor platônico, Sílvia (Leandra Leal), uma garota que mora a
alguns quarteirões de distância. Sílvia tem a janela do quarto quase toda
fechada por um papel colorido, mas através de uma abertura no papel e de um
reflexo em um espelho do guarda roupa, André pode ver pequenos fragmentos
(novamente) da vida da moça. Esses fragmentos são mostrados em uma ótima
montagem
com a tela dividida em pequenas tiras de imagens lado a lado, cada uma mostrando
um pedaço do quarto e da movimentação de Sílvia.
É
irônico que apesar de apaixonado platonicamente por Sílvia, André trabalhe a
poucos metros de Maria Inês, interpretada por ninguém menos que Luana Piovani.
Segundo André, e quem sou eu para discordar, Maria Inês é daquelas garotas que
são "gostosas, e sabem que são gostosas". Maria Inês passa o dia namorando os
anúncios de produtos caros das revistas e falando sobre seu namorado, um "alemão
que mora na Holanda". Como se vê, todos os personagens de "O Homem que Copiava"
parecem querer ser o que não são, ou ter o que não têm. O diretor Jorge Furtado
diz que o dinheiro (ou a falta dele) é como que um personagem extra na história.
O ótimo roteiro consegue captar a
luta diária que é ser um cidadão neste país chamado Brasil, em que se conta o
dinheiro do parco salário para se poder pagar o aluguel, pagar alguma prestação
e, no caso de André, talvez sobrar algum dinheirinho para uma revista ou gibi.
Mas tudo isso mostrado com bom humor e de maneira leve e divertida, a ponto de
nos identificarmos com os personagens quase que instantaneamente.
Há um quarto personagem que confesso que, ao
entrar na história, tirou um pouco de sua inocência e seu lado realista; Pedro
Cardoso é um ótimo ator e muito engraçado, do qual gosto muito. Mas no minuto
que ele entra em cena, tão "Pedro Cardoso" que o nome do seu personagem é
"Cardoso", um pouco do realismo do filme se perde. Sim, Luana Piovani já tinha
entrado em cena, mas talvez eu tivesse sido tão "enganado" pela bela atuação de
Lázaro Ramos e Leandra Leal, interpretando "gente como a gente" de maneira tão
perfeita, que a aparição de Cardoso me lembrou que aquilo era uma obra de
ficção.
Em dado momento André decide deixar de olhar
Sílvia de longe e tenta se aproximar dela. Ele a segue até seu trabalho em uma
loja de roupas e, para puxar conversa, acaba se comprometendo a comprar uma
camisola, aliás, um "chambre" de 38 reais (supostamente para sua mãe), só para
tentar impressionar a moça. Mas no mundo de André trinta e oito reais significam
uma pequena fortuna. Como conseguir o dinheiro? A única solução é "fazer" seu
próprio dinheiro. Aproveitando sua experiência com as fotocopiadoras, André
começa a tentar fazer uma cópia perfeita de uma nota de 50 reais. Ele consegue,
o que acaba atraindo a atenção de Cardoso, que também entra no "esquema" de
falsificação. Tudo é mostrado de maneira tão interessante e singela (afinal,
André está fazendo isso pelo amor de Sílvia), que acabamos perdoando esses
pequenos crimes e torcendo por eles.
O problema (e este é realmente o único defeito do
filme), é que a coisa não para por ai. O filme vai muito bem até pouco mais da
metade, retratando de maneira interessante e inteligente o cotidiano de quatro
brasileiros comuns. O relacionamento de André e Sílvia vai se estreitando a
olhos vistos, e Furtado conseguiu reproduzir muito bem a insegurança de duas
pessoas apaixonadas mas tímidas, com medo de perder um ao outro.
Mas, de repente, os pequenos crimes "inocentes"
acabam dando lugar a uma mirabolante trama de assalto e até de assassinato que
tira muito do tom leve proposto inicialmente pelo roteiro. E há outra trama
envolvendo um prêmio de loteria que funcionaria otimamente como uma piada de
final de filme, ou como uma maneira de tudo acabar bem. Mas Furtado acaba
mergulhando fundo na trama de mocinho contra bandido e o filme muda de figura. Por um momento cheguei até a achar que, como em algumas outras partes
do filme, tudo não passasse de uma piada visual ou até um delírio de André (como
seus sonhos de ser jogador de futebol), e que tudo voltaria à "realidade". Mas
não foi assim. Pode parecer moralismo de minha parte, mas infelizmente a
mensagem que fica é que, no Brasil, só se dá bem quem rouba ou ganha na loteria.
Ou ambos.
O que não tira o brilho do filme. O elenco é muito
bom e a parte técnica é tão boa que você até se esquece dos tempos em que cinema
nacional significava uma fotografia ruim, som inaudível e montagem patética. O
filme foi produzido pela Casa de Cinema de Porto Alegre e merece uma visita.
João Solimeo
junho de 2003
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